Postado por Acampamento Indígena
A realização da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016 tem mobilizado governos, empresas e cidadãos no Brasil na perspectiva não apenas da realização dos jogos mas também na possibilidade destes megaeventos deixarem um “legado” que, de fato, contribua para reduzir a desigualdade e para a melhoria das condições de vida nas cidades-sede.
Enquanto os governos, organizações internacionais (FIFA, COI) e empresas envolvidas na promoção dos eventos anunciam suas virtudes, a experiência internacional das cidades e países onde já houve a realização de megaeventos demonstrou que os benefícios gerados por eles quase nunca significaram uma melhoria nas condições de vida e na ampliação dos direitos de todos os cidadãos, sobretudo das populações mais vulneráveis.
Esta experiência também tem mostrado que estes eventos, muitas vezes, implicam em violações de direitos e desencadeiam impactos negativos sobre diversos segmentos sociais, especialmente sobre aqueles que, historicamente, foram excluídos da dinâmica urbana das cidades e países que sediarão tais eventos, como: moradores de assentamentos informais, migrantes, moradores de rua, trabalhadores sexuais , crianças e adolescentes, vendedores ambulantes e outros trabalhadores informais, inclusive da construção civil.
Estes efeitos perversos são particularmente ampliados através da imposição, pelo Poder Público e comitês promotores do evento, de um verdadeiro “estado de exceção”, regime legal instituído especialmente no contexto dos jogos, que permite a flexibilização das leis e suspensão de direitos antes e durante os jogos, ameaçando, assim, os mecanismos de defesa, proteção, garantia e promoção de direitos humanos.
Lembramos ainda, que para além das 12 Cidades: Fortaleza, Recife, Natal, Salvador, Manaus, Cuiabá, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre, onde ocorrerão os jogos haverá outra quantidade de cidades de apoio aos jogos, que sofrerão grandes impactos. Mesmo as capitais que ficaram fora dos jogos estão receberão, “como forma de compensação”, vultosos recursos para megaobras de infra-estrutura.
Já podemos detectar, no Brasil, sinais evidentes de que estas violações começam a ocorrer. Por outro lado, até agora não se vislumbra claramente que o legado Copa e das Olimpíadas contribua minimamente para a inclusão sócio- territorial e ampliação de direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais . Ao contrário, tudo aponta para uma reprodução, em escala enormemente ampliada, do que aconteceu durantes os Jogos Panamericanos de 2007, quando se assistiu ao desperdício de recursos públicos em obras super-faturadas que se transformaram em elefantes brancos e, tão ou mais grave, o abandono de todas as “promessas” que geraram expectativas na sociedade de algum “legado social”.
Entendemos que a realização de grandes eventos pode contribuir para uma política esportiva, desde que não se faça às custas da justiça urbana, dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais da imensa maioria da população. Queremos Jogos Olímpicos e Copa do Mundo em que a sociedade não seja transformada em torcedores que nada têm a fazer senão xingar o juiz, mas se realize enquanto conjunto de cidadãos, portadores de direitos e capazes de decidir coletivamente o uso dos recursos públicos.
Neste sentido, apontamos a necessidade, e mesmo urgência, de articular e mobilizar uma ampla rede de organizações sociais e populares, órgãos de defesa de direitos e controle do orçamento, com protagonismo das comunidades diretamente afetadas para, em cada bairro afetado, em cada uma das cidades-sede e no âmbito nacional, monitorar as intervenções pública e privadas e, sobretudo, levar adiante ações integradas em torno das seguintes pautas e agendas:
1.Transparência e acesso à informação Os planos, projetos, cronogramas, convênios e ações promovidas no âmbito da Copa e Olimpíada devem ser de domínio público, inclusive e principalmente das comunidades diretamente afetadas.
2. Orçamento Os orçamentos ligados à viabilização da Copa devem ser publicizados e sua execução acompanhada pela sociedade civil. Nenhuma política sócio-ambiental pode sofrer cortes em função da necessidade de direcionar recursos para os equipamentos relacionados aos jogos.
3.Direitos trabalhistas A construção das infraestruturas e equipamentos, bem como todos os serviços relacionados aos jogos devem respeitar os direitos trabalhistas e possibilitar a inclusão na formalidade do maior número possível de trabalhadores.
4. Despejo ZERO na realização da Copa e Olimpíada. Para a realização dos eventos não devem ocorrer remoções e despejos . Os megaeventos devem proporcionar melhora na qualidade de vida das pessoas, principalmente, daquelas que encontram-se em situação de vulnerabilidade, garantindo o direito à moradia e direito à cidade com as obras, nos termos do que determinam a legislação nacional e as recomendações e tratados internacionais.
5. Participação / Consultas Públicas As ações e obras propostas no âmbito dos megaeventos devem ser objeto de consultas e audiências públicas, sendo que os posicionamentos e recomendações definidas nesses espaços devem orientar as ações, garantindo, a efetiva participação popular, particularmente das comunidades diretamente afetadas.
6. Outras violações de Direitos Humanos As ações de segurança e intervenção urbanística devem respeitar e efetivar os direitos humanos, com a intenção de melhorar a realidade urbana e as condições de vida de populações vulneráveis como moradores de assentamentos informais, crianças e adolescentes, trabalhadores informais, comunidades indígenas e afrodescendentes, população em situação de rua, artistas populares, entre outros.
7. Legado Sócio-Ambiental e de Ampliação de direitos O saldo final dos investimentos e políticas de incentivos praticados para viabilizar os megaeventos deve ser de um legado socioambiental positivo para toda a sociedade de modo que sejam ampliados os direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais e fortalecidas as redes e políticas voltadas para economia solidária e promoção da inclusão e equidade sócio espacial. Para tanto, deve ser construído um Plano de compromisso em diálogo com as organizações sociais e comunidades afetadas.
8. Repúdio à “cidade de exceção”: A legalidade e direitos já inscritos na Constituição e legislação brasileiros não podem ser suspensos em função e para a realização dos jogos. As adequações legais para a realização das obras devem observar e aplicar os princípios que constam no Estatuto da Cidade, na Constituição Federal e nos tratados e acordos internacionais, permitindo, assim, a construção de cidades justas, democráticas, sustentáveis e inclusivas e a garantia de direitos historicamente conquistados. Dessa forma, Planos Diretores, legislações urbanística e fiscal, regras para a contração de obras de interesse público (licitações, concessões públicas, etc) devem ser estritamente respeitadas e qualquer isenção ou renúncia fiscal ou legal deve ser objeto de amplo debate.
Medalha de ouro para os direitos humanos: vamos ganhar o jogo contra as desigualdades urbanas!
A COPA É NOSSA. Não às remoções. A COPA É NOSSA. Habitação e transporte público são prioridades.
Copa e olimpíadas: vamos jogar limpo. Transparência, participação e controle social. Vamos empatar esse jogo: 1 real para o esporte, 1 real para habitação social. Vamos empatar esse jogo: 1 real para esporte, um real para saúde e saneamento ambiental.
http://direitoamoradia.org/pt/noticias/blog/megaeventos/copa-do-mundo-e-olimpadas/2011/01/13/articulao-nacional-popular-pela-garantia-dos-direitos-humanos-no-contexto-dos-megaeventos/
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Direito à cidade? Exclusão é a marca das obras para os megaeventos - Serviço Social deve estar atento aos impactos causados pela realização da Copa do mundo e das Olimpíadas no Brasil
As obras para a Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016 atropelam as comunidades (arte: Rafael Werkema)
"As obras para realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 estão, literalmente, passando em cima das comunidades e dos direitos dos/as cidadãos/ãs". A denúncia é do dirigente da Central de Movimentos Populares (CMP), Benedito Barbosa, durante o Seminário de Capacitação para o Conselho Nacional das Cidades, realizado em Brasília, nos dias 6 e 7 de junho, pelo Fórum Nacional de Reforma Urbana, articulação nacional que congrega movimentos sociais e entidades em defesa da reforma urbana. O CFESS, que integra o Fórum, marcou presença no Seminário.
"A realização desses megaeventos deveria deixar um legado sociourbano e socioambiental positivos para as cidades que abrigam tais eventos e, principalmente, para a sociedade, de modo que sejam garantidos os direitos humanos, civis, políticos, sociais, culturais etc. Entretanto, o que temos visto é uma imposição do Poder Público e dos comitês promotores dos eventos de um 'estado de exceção', que permite a flexibilização das leis e suspensão de direitos, antes e depois dos jogos. E os segmentos sociais mais atingidos são aqueles historicamente excluídos: moradores/as de assentamentos informais, moradores/as em situação de rua, trabalhadores/as informais etc.", explica Benedito, mais conhecido como "Dito".
Segundo ele, em todo o país, no âmbito da habitação, atrocidades vêm sendo cometidas contra a população mais pobre, inclusive nas cidades que sediarão a Copa do Mundo. Por isso, é preciso ficar atento/a às ações que estão por vir. "Em São Paulo, fotografaram e pintaram marcas nas casas dos moradores/as que seriam removidos/as ou despejados/as, isso sem qualquer aviso ou negociação. Tudo na base da truculência, da ameaça e da intimidação. Uma violação absurda dos direitos dos/as cidadãos/ãs", denuncia.
Durante o Seminário de Capacitação, foi distribuído o Documento da Articulação Popular Nacional pela garantia dos direitos humanos no contexto dos megaeventos, que faz uma análise crítica da questão. "Até agora não é evidente que o legado da Copa e das Olimpíadas contribua para ampliação de direitos sociais, econômicos e ambientais. Ao contrário, a falta de diálogo e transparência dos investimentos aponta para a repetição do que ocorreu durante os Jogos Panamericanos de 2007, quando assistimos ao desperdício de recursos públicos (de acordo com o Tribunal de Contas da União – TCU – mais de R$3,4 bilhões foram gastos de forma indevida, mas ninguém foi punido) em obras superfaturadas que se transformaram em elefantes brancos e, tão ou mais grave, o abandono de todas as 'promessas' que geraram expectativas na sociedade de algum 'legado social'", diz trecho do documento.
A proposta é mobilizar o maior número de entidades, movimentos populares, sindicatos e órgãos da defesa dos direitos e controle do orçamento público, com protagonismo das comunidades direta e indiretamente afetadas pelas obras dos megaeventos, para monitorar as ações para realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
Seminário de Capacitação para o Conselho Nacional das Cidades, realizado pelo Fórum Nacional de Reforma Urbana, reuniu movimentos sociais e entidades em defesa da reforma urbana (foto: Rafael Werkema)
Assistente social e reforma urbana
"Muitas vezes, o/a assistente social, no papel de 'técnico social', vem sendo utilizado/a como 'porta voz da truculência' das empresas que, a mando do Estado, fazem a remoção de moradores/as de assentamentos informais", afirma o dirigente da CMP. Segundo ele, em alguns casos, na abordagem do/a assistente social, está faltando o diálogo e a disposição para esclarecer os direitos do/a cidadão/ã.
Para a conselheira e representante do CFESS no Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU), Kátia Madeira, é preciso que a categoria esteja atenta a estes processos, principalmente agora que as obras para os megaeventos dão sinais de atraso. "Os cronogramas estão atrasados e os organizadores (Estado e empresas privadas) farão de tudo para concluírem as obras em tempo. Isso significa violar os direitos dos/as cidadãos e atropelar as comunidades", afirma.
Por isso, ela faz questão de destacar o Código de Ética do/a Assistente Social: "é na defesa radical dos princípios éticos e na busca de alternativas nos espaços políticos para enfrentamento à violação dos direitos, que poderemos desenhar nossa prática profissional". Segundo Kátia, a categoria, ao defender o posicionamento em favor da equidade e justiça social, "que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática", reforça que a articulação e o fortalecimento dos movimentos sociais da classe trabalhadora são essenciais para a ação político-profissional no âmbito da garantia dos direitos e da prestação de serviços públicos.
Para a assistente social e também representante do CFESS no FNRU, Tânia Maria Ramos de Godoi, a defesa do direito à cidade está na luta pelo acesso universal aos serviços, na distribuição democrática dos bens produzidos, no incentivo ao diálogo intercultural. "O direito a cidade é, eminentemente, a luta pela defesa da construção de um modo de viver com ética, pautado na igualdade e liberdade substantivas e na equidade social. O direito à cidade é a luta para romper com a desigualdade social. E essa nossa luta vai de encontro ao que as autoridades e patrocinadores dos megaeventos estão fazendo", reforça.
Ainda segundo Tânia, novas formas de segregação social e estigmatização, tanto espaciais como sociais, vêm se consolidando na realidade brasileira. "Com isto, intensificam-se a disseminação da 'cultura do medo', o isolamento das elites em 'guetos' de luxo e a exclusão das classes trabalhadoras do acesso aos serviços e benefícios da urbanização e, por consequência, o seu isolamento nas cidades. Prevalece, assim, a dualidade entre 'cidade dos ricos e cidade dos pobres, a cidade legal e a cidade ilegal', caracterizando uma síntese das contradições da questão social na contemporaneidade", completa.
Benedito Barbosa, da Central de Movimentos Populares: "As obras para realização dos megaeventos estão, literalmente, passando em cima das comunidades e dos direitos dos/as cidadãos/ãs" (foto: Rafael Werkema)
Denúncia no CRESS
Benedito Barbosa, da CMP, sugeriu que o Conjunto CFESS-CRESS criasse canais de denúncia, tanto para os/as moradores, que se sentem prejudicados/as pelo tratamento/atuação do assistente social, quanto para o/a próprio/a profissional, para denunciar a falta de condições éticas para seu trabalho, principalmente agora nesse contexto de grandes obras.
Entretanto, a conselheira Kátia Madeira ressalta que já existem esses espaços nos CRESS. "Aquele cidadão/ã que se sentir prejudicado/a deve fazer uma denúncia no CRESS. E o/a assistente social também deve procurar o Regional em caso de infração por parte do empregador ao Código de Ética ou à Resolução 493/2006, que determina as condições éticas e técnicas para o exercício profissional da categoria", ressalta.
Ministério público em defesa do/a cidadão/ã
No contexto de correria e atropelos das obras para os megaeventos, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público (PFDC/MPF) divulgou, em 27 de abril de 2011, uma Recomendação ao Governo em que solicita, entre outras coisas, que seja contemplada a participação popular em todas as fases dos procedimentos de remoções, deslocamentos e reassentamentos da população (criança, idoso, pessoa com deficiência), garantindo-se a mediação antes dos ajuizamentos das ações judiciais ou mesmo quando já ajuizadas ações, evitando-se a utilização da força policial e quando esta se fizer necessária, que seja por pelotão capacitado em lidar com esse público.
No documento, a PFDC recomenda também que "passe a ser contabilizado nos custos e orçamentos das obras da Copa e dos Jogos Olímpicos o que será despendido em relação aos deslocamentos da população (criança, idoso, pessoa com deficiência), incluindo-se construção de moradias dentro de um plano que contemple saneamento básico, escolas, hospitais, postos de saúde, creches, transporte, mobilidade, instituições de longa permanência para idosos e pessoas com deficiência, dentre outras necessidades da vida urbana com qualidade".
Para Benedito, do CMP, a Recomendação do MPF é fundamental para a defesa dos direitos das comunidades e, por isso deve ser de conhecimento de todos/as, inclusive os/as assistentes sociais. "O documento lista uma série de leis, resoluções e convenções acerca dos direitos dos/as cidadãos", finaliza.
Tânia e Kátia, representantes do CFESS no FNRU (foto: Rafael Werkema)
http://www.cfess.org.br/noticias_res.php?id=630
Embaixada da Torcida Brasileira - Projeto de serviço social durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha para acompanhar os torcedores brasileiros.
Martin Curi
(Fernuniversität Hagen)
Situação Atual
A atual discussão no Brasil sobre a violência, que envolve torcedores de futebol, e sua possível solução explicita nossa impotência diante do fato e da urgência de medidas pertinentes a este assunto. Comentaristas da mídia brasileira sugerem ações rigorosas de repressão, como aumento no controle e punição dos envolvidos. No entanto, isso representa um só lado, um só olhar sobre a solução possível.
Como alternativa, temos as medidas preventivas aplicadas por assistentes sociais. São urgentes medidas de caráter (re)educativo, preventivo e corretivo (Murad 1996: 102). Hoje, aparece como única solução a exclusão das torcidas organizadas, sempre declaradas como as únicas culpadas pela violência , o que soa pouco eficiente porque essas pessoas problemáticas vão mostrar seu comportamento indesejável dentro e fora do estádio, seja no ambiente do futebol ou no ambiente social mais amplo.
Realmente eficazes seriam medidas que vão às raízes do problema. As torcidas organizadas oferecem uma oportunidade a quem a elas pertence; os torcedores que ali estão, têm nome e endereço, colocando-se dessa forma, acessíveis ao diálogo e disponíveis às medidas preventivas. Conclui-se facilmente, então, que ao contrário da exclusão do torcedor, através da proibição das torcidas, sua inclusão pode ser o vínculo necessário ao diálogo e à construção de formas de participação social mais conscientes.
É necessária a criação de um programa específico no Brasil dirigido às torcidas que resgate sua cidadania podendo assim transmitir aos jovens o conhecimento das regras que vigoram e também os protegem em nossa sociedade.
Atualmente, há no Brasil algumas iniciativas que favorecem o trabalho junto às torcidas organizadas. Pode-se citar a criação do Estatuto do Torcedor como exemplo, pois reconhece o torcedor como cidadão de direitos. Outro exemplo refere-se às polícias especiais nos estádios no Rio de Janeiro e em São Paulo, que por estarem mais preparadas e conhecerem a problemática das torcidas, acabam por agir mais adequadamente. Por fim, outra ação positiva que diz respeito às competições de criatividade entre torcidas, incentivadas por jornais de futebol – experiência relembrada pelo Jornal Lance! que ocorreu há 70 anos atrás, cuja criação deve-se ao jornalista Mário Filho.
Para transformar essas iniciativas em um programa eficaz apresento uma possibilidade de procedimento como já praticado e consagrado internacionalmente na Europa: as Embaixadas de Torcedores nas copas do mundo e Eurocopas.
A proposta consiste em adaptar este modelo para o Brasil e organizar uma Embaixada da Torcida Brasileira na Copa do Mundo de 2006 na Alemanha. Os princípios deste trabalho serão aplicados depois em projetos locais durante os campeonatos estaduais e brasileiros. É fundamental estudar a metodologia, para usá-la numa possível Copa do Mundo de 2014 no Brasil.
Trata-se de projetos ambulantes e limitados ao período de uma copa do mundo. Este tipo de iniciativa é considerada hoje em dia um fator imprescindível para uma boa organização de um evento esportivo internacional. O organizador das embaixadas de torcedores é a FSI – Football Supporters International (www.footballsupportersinternational.com), rede internacional dos Projetos para Torcedores Nacionais. Nestes projetos de serviço social para torcedores estão as raízes deste trabalho.
self-fulfilling prophecy. Isso significa que, pessoas que não eram violentas, partem para a agressão porque são tratados preconceituosamente pela polícia ou seguranças de um estádio. As embaixadas de torcedores são projetos de serviço social, isto significa que seus profissionais defendem as necessidades dos seus clientes, que são os torcedores. Nos estádios existe uma cultura popular própria, que se manifesta com a bateria, os cânticos e as bandeiras. Esta criatividade só pode existir num espaço livre que não está demasiadamente cerceado. Isso está ameaçado, por exemplo, pela obrigação de se sentar e pelo aumento do preço dos ingressos. Com o trabalho das Embaixadas de Torcedores, de apoiar e informar, enfrentar o estigma e proteger a cultura, os direitos e as necessidades dos torcedores será possível organizar copas do mundo, que representam o encontro das culturas.
ABERMAS (1981). Ele diz que nossas sociedades modernas funcionam em duas categorias: o mundo da vida e do sistema. O mundo do sistema é o mais visível para nós, porque é a categoria da economia, política e administração. Nele as pessoas usam dinheiro e poder estrategicamente para conseguir atingir seus anseios. O sistema é importante para a produtividade de uma sociedade. No entanto existe além disso o mundo da vida, que seguindo HABERMAS (1981) é ainda mais importante para a sobrevivência das sociedades. A vida privada e a cultura caracterizam esta categoria. Neste mundo a comunicação e bons argumentos são a moeda corrente, usados em arenas, como festas populares e esporte onde encontramos reproduzidos seus valores e suas normas. Sem o mundo da vida as sociedades se desmanchariam. (Habermas 1981: 229 – 295) Isso explica a importância do futebol: nele aparece a manifestação dos valores. OER (2005) com seu livro " Como o futebol explica o mundo" ou o alemão THEWELEIT (2004) com " O gol pelo mundo" (com trocadilho em alemão: Tor significa portão e gol, ver resenha nesta edição de Esporte e Sociedade). A sociedade brasileira em especial já foi analisada através do futebol, por MURAD (1996) e DA MATTA (1982) ou pelo jornalista inglês BELLOS (2002).
Shankly e Habermas: O que é futebol?
Os países da Europa criaram uma assistência social especialmente para torcedores adolescentes de futebol , apesar de já existir um serviço social para adolescentes em geral. Por que esta especialização foi necessária? Por que os torcedores 3
Esporte e Sociedade, número 1, Nov2005/Fev2006 http://www.lazer.eefd.ufrj.br/espsoc/ precisam de um tratamento especial? É bem visível através da mídia e da polícia, que o futebol é um espaço social que merece uma atenção específica. Este fenômeno deve ser explicado com algumas considerações teóricas.
O técnico inglês Bill Shankley falou, que futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso. A importância do futebol, que Shankley reconhecia, pode ser analisada através da teoria de sociedade de H
Um exemplo para visualizar este pensamento é o juiz. A maioria dos torcedores não pode acompanhar juízes em tribunais, então a única forma de aprender sobre o julgamento de direito e justiça é a observação de um árbitro de futebol.
A apresentação das sociedades é bem visível na comparação das suas maneiras de jogar futebol. O Brasil valoriza a habilidade individual, enquanto, por exemplo, a Alemanha, prefere a força do coletivo. Isso descreve as sociedades respectivas.
Já foram publicados vários livros sobre o poder do futebol. Por exemplo o americano F
ABERMAS (1981) alerta que o mundo da vida está ameaçado por uma invasão de poder (polícia) e dinheiro (comercialização), que são elementos do mundo do sistema. Seria necessária uma proteção contra esta invasão (Habermas 1981: 522). Vemos então o papel especial que o futebol ocupa na sociedade e que portanto necessita da intervenção do serviço social para a defesa dos torcedores, que têm direito a participar do mundo da comunicação e precisam de uma voz na arena.
H
Idéia: prevenção versus repressão
O trabalho das Embaixadas de Torcedores tem quatro princípios, explicados abaixo:
• Oferecer um serviço de apoio e informação digno de consumidores.
Muitas vezes a população e as instituições locais se sentem ameaçadas com a chegada de torcedores estrangeiros. Eles temem atos violentos por isso reagem enviando a polícia local. O resultado é que os torcedores são recebidos nos aeroportos e estações de trens com um esquadrão de policiais armados e vestidos em uniformes futuristas fazendo com que os torcedores não se sintam bem vindos, no lugar onde seu time vai jogar. Estes torcedores compraram ingressos e são dessa forma consumidores e também turistas, que vão deixar dinheiro. Qualquer outro convidado seria recebido de uma outra forma.
5 Esporte e Sociedade, número 1, Nov2005/Fev2006 http://www.lazer.eefd.ufrj.br/espsoc/ As Embaixadas de Torcedores querem oferecer esta recepção, com apoio e informação. Elas querem, que os torcedores se sintam bem-vindos no país anfitrião e diminuir dessa forma a sensação de exclusão e por conseguinte o risco de reação violenta.
• Enfrentar o estigma de que todos os torcedores são violentos.
Como o primeiro princípio já mostrou, sofrem os torcedores com o estigma de violentos. Idéia que traz um preconceito e não a verdade. Pode ser que existam alguns poucos criminosos e torcedores violentos num estádio lotado de 50.000 pessoas. Mas observando qualquer grupo da sociedade desse tamanho será possível encontrar a mesma percentagem de criminosos e desordeiros. Este estigma traz várias desvantagens, como o mau tratamento pela polícia, as grades, que parecem jaulas, nos estádios e as matérias nos jornais. Solidificando o preconceito provoca muitas vezes um fenômeno psicológico chamado
O grupo estigmatizado pode criar uma subcultura, que se difere nos seus valores da cultura do restante da sociedade. Esta subcultura dá aos indivíduos uma outra auto-estima para seguir as próprias normas, que podem aceitar o uso de violência (Lamnek 1993: 152 - 162 ). Se isso for o caso, a única maneira de evitar a agressão é através da sua inclusão social. A exclusão é contraprodutiva e vai só marginalizar esta subcultura. Por isso as embaixadas de torcedores têm que enfrentar o estigma dos torcedores.
• Proteger a cultura, as necessidades e os direitos dos torcedores.
A embaixada de torcedores não é um instrumento de vigilância / polícia.
Por causa do já citado estigma dos torcedores várias vezes seus direitos são violados começando com seus direitos de consumidores, como a troca de ingressos ou alimentação higiênica, até direitos humanos, como ter um advogado de defesa no caso dos julgamentos rápidos nos estádios.
Enfim, os torcedores têm várias necessidades, especialmente num país estrangeiro, como ajuda em encontrar ingressos, hospedagem ou o estádio. A informação e uma recepção amigável são básicas do trabalho das Embaixadas de Torcedores.
Muitas vezes a polícia tentou usar as embaixadas de torcedores como instrumento de vigilância. Isso não pode acontecer, pois para oferecer uma ajuda efetiva os torcedores precisam confiar no trabalho dos assistentes sociais.
• Promover campeonatos de futebol como espaço de intercâmbio e encontro entre diferentes culturas.
Quem já visitou uma copa do mundo sabe da atmosfera maravilhosa do encontro dos povos. Diferentes nacionalidades se encontram na rua, torcedores bebem e cantam juntos. Isso acontece pacificamente. Para a maioria dos torcedores, este encontro é o motivo para ir a uma copa. Mesmo assim existe a tendência entre muitos órgãos responsáveis de separar as torcidas e dessa forma evitar o encontro das pessoas.
self-fulfilling prophecy. Isso significa que, pessoas que não eram violentas, partem para a agressão porque são tratados preconceituosamente pela polícia ou seguranças de um estádio. As embaixadas de torcedores são projetos de serviço social, isto significa que seus profissionais defendem as necessidades dos seus clientes, que são os torcedores. Nos estádios existe uma cultura popular própria, que se manifesta com a bateria, os cânticos e as bandeiras. Esta criatividade só pode existir num espaço livre que não está demasiadamente cerceado. Isso está ameaçado, por exemplo, pela obrigação de se sentar e pelo aumento do preço dos ingressos. Com o trabalho das Embaixadas de Torcedores, de apoiar e informar, enfrentar o estigma e proteger a cultura, os direitos e as necessidades dos torcedores será possível organizar copas do mundo, que representam o encontro das culturas.
Trabalho
Estes princípios significam seis componentes para o trabalho dos assistentes sociais numa Embaixada de Torcedores:
• Informação para os torcedores.
Isso é um ponto básico. O torcedor, que chega num país estranho, precisa de várias informações no seu próprio idioma. As perguntas mais freqüentes são sobre a situação de ingressos, que significa muitas vezes o mercado negro. Nesse caso é importante de conhecer as leis do país anfitrião a esse respeito. Outras leis de interesse são sobre álcool (venda, no trânsito, no estádio). Além disso, uma Embaixada de Torcedores deve ter várias outras informações disponíveis, como: mapas do local, acomodação, alimentação, serviço de emergência, serviço consular e detalhes do campeonato.
• Apoio e acompanhamento
Os assistentes sociais da Embaixada devem ir ao local de encontro dos torcedores e sempre estar disponíveis para qualquer necessidade. Isso pode ser uma conversa leve, só para se conhecer, até a ajuda para feridos ou presos. Ter alguém que fala seu idioma nos casos de emergência é muito importante. Acompanhamento significa também entender seu mundo e suas necessidades melhor, por isso os profissionais andam também com os torcedores e freqüentam os mesmos lugares, não só o estádio.
• Observação da organização da competição fan-zones, praças com tela gigantes onde são transmitidos os jogos para as pessoas, que não conseguiram ingressos. Um torcedor bem tratado vai se comportar bem. TOTT E ADANG (2004). Eles provaram que um uniforme de aparência leve e um sorriso são instrumentos muito mais eficazes do que uniformes pesados para evitar violência (www.liv.ac.uk/Psychology/DeptInfo/StaffProfile/CStott.html). descobrir as normas e regras deles. A partir desse conhecimento é possível explicar um certo comportamento e reagir adequadamente se necessário. Nas torcidas existem várias subculturas juvenis, sujeitas a modas que podem mudar muito rápido. Por isso têm de ser observados continuamente, só assim os assistentes sociais conseguem interferir com legitimidade. Fan-Mobile) fan-mobile é normalmente uma van, que carrega material e os assistentes sociais para o local de encontro dos torcedores. Isso acontece normalmente na praça central da cidade, onde será o jogo, ou nos arredores do estádio. A vantagem é que o fan-mobile pode se deslocar com os torcedores. Ele serve como base e ponto de referência, facilmente encontrável pelos torcedores. Fan-Guide) fan-guide é produzido com antecedência e contém informações específicas para torcedores sobre o país anfitrião no idioma dos torcedores viajantes. Ele informa, por exemplo, sobre o caminho para o estádio, a cultura local de futebol, restaurantes e leis. É importante que o fan-guide seja gratuito. Dessa forma os assistentes sociais conseguem estabelecer o contato inicial através da distribuição dos guias. Talvez a informação mais importante do fan-guide seja o número do Disque-ajuda. Helpline) fan-guide. Isso se mostrou uma ajuda muito importante, porque nas copas anteriores ligaram pessoas até da cadeia. fan-guide foi produzido com antecedência, pode ser que muitos eventos ou lugares tenham mudado neste meio tempo. Então seria bom conseguir material turístico mais recente junto ao serviço turístico local. Isso deve ser distribuído no fan-mobile. Fanzine
Streetkick) streetkick oferece a possibilidade de montar um campo de pelada em qualquer lugar, por exemplo, nos centros da cidade. Ele deve ser montado ao lado das Embaixadas. Ele mostra a força do futebol para congregar as pessoas. Muitas vezes torcedores de equipes adversárias jogam entre si, usando os uniformes dos seus clubes. Estes jogos sempre acontecem sem incidentes. Os torcedores acabam tirando fotos juntos e se divertindo bastante, o que mostra que uma copa é um lugar de encontro e não de segregação.
http://www.ludopedio.com.br/rc/upload/files/300304_es106.pdfROGETTO ULTRA, Itália: www.progettoultra.it . TOTT, C.: www.liv.ac.uk/Psychology/DeptInfo/StaffProfile/CStott.html . know-how precioso para a sua candidatura à Copa do Mundo de 2014. É necessário de formar pessoas experientes para este tipo de trabalho. Agora é o momento para isso. Esperamos que o Brasil participe desse projeto e desenvolva dessa forma uma nova maneira de enfrentar seu problema de violência no futebol.
Produtos
No item anterior foi mostrado o trabalho das Embaixadas de Torcedores teoricamente. Mas o que significa isso na prática? Para explicar isso estão descritos em seguida as nove produtos principais, que as embaixadas de torcedores oferecem.
• Unidade móvel com assistentes sociais (
O
• Guia turístico para torcedores (
O
• Disque-ajuda 24 horas (
O disque ajuda é um telefone que funciona 24 horas e é sempre atendido pelos assistentes sociais da Embaixada. Dessa forma, os torcedores sabem que irão conseguir ajuda no seu próprio idioma através desse número. O telefone está impresso no
• Material turístico informativo mais imediato
Como o
•
Uma forma de distribuir sempre informação atualizada entre os torcedores é a produção de um
fanzine. O problema é que ele tem de ser produzido num outro país e em pouco tempo, porque entre os jogos temos normalmente só quatro dias. •
Website Existe como alternativa de informação atualizada, mas é preciso levar em conta que torcedores que viajam nem sempre têm acesso à internet.
• Contato pessoal
Isso consiste na diferença fundamental em relação à informação turística, ao serviço consular ou à polícia. Os assistentes sociais não esperam os torcedores chegarem, mas vão até eles de uma forma amigável e não burocrática, munidos de um conhecimento de seu universo pessoal. É oferecida informação e ajuda confiável e no idioma dos torcedores, que desta forma se sentem bem recebidos.
• Pelada na rua em campo inflável (
O
• Relatórios
Já no capítulo anterior foram mencionados os relatórios para documentação própria, para os patrocinadores e para a imprensa.
Conclusão
Foi apresentado o trabalho das Embaixadas de Torcedores, que é um serviço de informação, apoio e acompanhamento de torcedores, que viajam para jogos e campeonatos de futebol fora do próprio país. Dessa forma elas reconhecem os torcedores como consumidores e tratam-nos adequadamente. São uma ferramenta promissora que diminui os incidentes violentos ao redor do futebol.
Pessoas respeitadas, que usufruem de um bom serviço não precisam manifestar a sua insatisfação. O sucesso da Eurocopa 2004 em Portugal mostrou, que é possível organizar um campeonato de futebol e proporcionar encontros sem violência. Peças chaves para isso foram o comportamento exemplar da polícia portuguesa, que agiu defensivamente, e o serviço das Embaixadas de Torcedores.
Por causa desse sucesso o comitê organizador da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha investe muito na recepção e no serviço para os torcedores estrangeiros. Estão sendo planejadas não só as embaixadas móveis nos centros das cidades, mas também escritórios fixos acessíveis para todas as nacionalidades. A Alemanha oferece toda a infra-estrutura, mas cabe ao lado brasileiro financiar a sua própria embaixada. Com van, guia e profissionais qualificados, poderia adquirir um
Após o trabalho das Embaixadas de Torcedores na Copa, o projeto poderá ser estendido aos campeonatos regionais e nacionais no Brasil. Os princípios são os mesmos, só a execução prática difere, pois seria um projeto fixo, de longo prazo e com um público-alvo diferente. Numa copa os assistentes sociais têm que se deslocar várias vezes em pouco tempo, oferecer um trabalho ambulante e trabalhar para um público mais elitizado.
Referências bibliográficas
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http://www.ludopedio.com.br/rc/upload/files/300304_es106.pdfROGETTO ULTRA, Itália: www.progettoultra.it . TOTT, C.: www.liv.ac.uk/Psychology/DeptInfo/StaffProfile/CStott.html . know-how precioso para a sua candidatura à Copa do Mundo de 2014. É necessário de formar pessoas experientes para este tipo de trabalho. Agora é o momento para isso. Esperamos que o Brasil participe desse projeto e desenvolva dessa forma uma nova maneira de enfrentar seu problema de violência no futebol.
É necessário, que um órgão oficial observe a organização de um evento tão grande, como uma copa do mundo, do ponto de vista do consumidor, ou seja, do torcedor. São pontos como o conforto nos estádios, a venda dos alimentos, a higiene nos banheiros, o transporte ou a sinalização, para encontrar rapidamente a entrada certa e seu lugar. A mesma coisa vale para os chamados
• Observação da Polícia e Segurança
O comportamento da polícia é crucial para evitar incidentes violentos. Os assistentes sociais dos projetos para torcedores sinalizam, há tempos, que o comportamento e a aparência agressiva por parte da polícia deflagra a violência, ao invés de evitá-la. Isso foi agora comprovado por uma pesquisa dos psicólogos da Universidade de Liverpool, S
Outra questão é a segurança dos torcedores no estádio, por exemplo, saída de emergência fácil e a falta de grades. É melhor alguém invadir o campo, do que dezenas morrerem nas grades como em Bruxellas em 1985 ou Sheffild em 1989.
• Observação do Comportamento das Torcidas
Para que os assistentes sociais possam entender o comportamento dos torcedores, eles têm de acompanhá-los, principalmente ao estádio, pois só dessa forma é possível
• Relatórios para UEFA, Organizadores, Imprensa, Projetos para torcedores.
Todo este trabalho e as observações têm de ser fixados em relatórios, não só para melhorar o próprio trabalho, mas também para informar órgãos que patrocinaram o projeto como associações de futebol. Além disso, o público quer ser informado através da mídia. Isso é uma possibilidade de enfrentar o estigma dos torcedores.
Pioneiros foram países como a Alemanha com sua coordenação na KOS – Koordinationsstelle der Fanprojekte em Frankfurt (www.kos-fanprojekte.de ), a Inglaterra com sua associação nacional de torcedores (www.fsf.com.uk) e a Itália com o Progetto Ultra em Bologna (www.progettoultra.it).
As primeiras Embaixadas de torcedores foram organizadas em 1990 durante a Copa da Itália. Isso se deu em reação aos incidentes violentos durante campeonatos anteriores e da reação da polícia e imprensa. O trabalho se repetiu e foi ampliado nas copas de 92 na Suécia, 96 na Inglaterra, 98 na França, 2000 na Bélgica/Holanda, 2002 no Japão/Korea e 2004 em Portugal. Nesse último caso, o financiamento básico foi proporcionado pela UEFA e foi complementado pelas associações nacionais de futebol, os governos ou outros patrocinadores dos diversos países participantes: Alemanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália, República Tcheca e Suíça. Esperamos ter na Copa 2006 o Brasil entre estes países, como primeiro participante não-europeu.
Economia produzirá R$ 142 bilhões adicionais
A Copa deverá gerar 3,63 milhões de emprego s/ano e R$ 63,48 bilhões de renda para a população no período 2010-2014, além de uma arrecadação tributária adicional de R$ 18,13 bilhões.
O cenário de referência adotado neste estudo aponta que a Copa do Mundo de 2014 vai produzir um efeito cascata surpreendente nos investimentos realizados no País. A economia deslanchará como uma bola de neve, sendo capaz de quintuplicar o total de aportes aplicados diretamente na concretização do evento e
impactar diversos setores.
Além dos gastos de R$ 22,46 bilhões no Brasil relacionados à Copa para garantir a infraestrutura, e a organização (veja quadro nesta página), a competição deverá injetar, adicionalmente, R$ 112,79 bilhões na economia brasileira, com a produção em cadeia de efeitos indiretos e induzidos. No total, o País movimentará R$ 142,39 bilhões adicionais no período 2010-2014, gerando 3,63 milhões de empregos-ano e R$ 63,48 bilhões de renda para a população, o que vai impactar, inevitavelmente, o mercado de consumo interno, como é possível notar na tabela da página 6.
Essa produção também deverá ocasionar uma arrecadação tributária adicional de R$ 18,13 bilhões aos cofres de municípios, estados e federação. O impacto direto da Copa do Mundo no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro é estimado em R$ 64,5 bilhões para o período 2010-2014 – valor que corresponde a ,17% do valor estimado do PIB para 2010, de R$ 2,9 trilhões. Como a Copa do Mundo é um
evento pontual, uma parte de seus impactos sistemáticos não será permanente. De fato, uma vez concluídos os investimentos e realizada a Copa, a continuidade dos impactos positivos dependerá da capacidade dos stakeholders (agentes envolvidos) em aproveitar as oportunidades e os legados do evento. Por esse motivo, a avaliação realizada na primeira parte deste estudo é limitada ao período 2010-2014. Assim, a geração de emprego estimada aqui se refere, em princípio, apenas a ocupações temporárias. Os 3,63 milhões de empregos-ano estimados correspondem, em termos salariais, a 3,63 milhões de ocupações com duração de um ano. A distribuição exata desses empregos-ano ao longo do período 2010-2014 dependerá do cronograma preciso de realização das obras e ações. Os setores mais beneficiados pela Copa do Mundo serão os de construção civil, alimentos e bebidas, serviços prestados às empresas, serviços de utilidade
água, esgoto e limpeza urbana) e serviços de informação.No topo da lista dos beneficiados, a construção civil gerará R$ 8,14 bilhões a mais no período 2010-2014. A produção total
pública (eletricidade, gás,
Em conjunto, todas essas áreas deverão ter sua produção aumentada em R$ 50,18 bilhões.
do setor em 2010 é estimada em R$ 144,6 bilhões. Outros exemplos de segmentos da economia que obterão vantagens com a Copa são os de serviços prestados às empresas e serviços imobiliários e de aluguel. O primeiro produzirá R$ 6,5 bilhões adicionais no período e o segundo, R$ 4,4 bilhões.o setor público (42%) e R$ 17,16 bilhões serão provenientes do setor privado (58%).Do total de R$ 29,6 bilhões que correspondem aos gastos estimados relacionados à Copa (incluindo despesas de visitantes), R$ 12,5 bilhões terão como origem
Mudanças ao longo da história
O País passou por muitas mudanças desde que foi sede pela primeira vez da Copa do Mundo, em 1950. O porte do evento era indiscutivelmente outro. Naquele momento, competiam 13 seleções, disputando 22 jogos em seis
espectadores, além de ter gerado 18 milhões de visitas aos
estádios, com um público estimado em 1,04 milhão de espectadores. Já a edição de 2006, sediada na Alemanha, contou com 32 times disputando 64 jogos em 12 estádios, e atraiu 3,35 milhões deFan Parks (grandes áreas de lazer para diversão pública e gratuita que não existiam na década de 50) e de contar com um número estimado de26,29 bilhões de telespectadores. A Copa de 2014, provavelmente, terá dimensões ainda maiores de
público e telespectadores, mas
A Copa das Confederações é o primeiro grande evento a se realizar no Brasil pouco antes da Copa do Mundo e será, portanto, a prova dos nove para testar se todos os preparativos estão correndo dentro do cronograma e seguindo
Com importância relevante, mas em escala reduzida, competem oito seleções, que disputam 16 jogos, com duração de 16 a 22
visitantes estrangeiros esperados para a Copa do Mundo. Muitas das estruturas requeridas para a Copa do Mundo devem estar prontas para a Copa das Confederações, quando serão testados os estádios, os vários
centros de mídia (
Para que o megaevento da Copa do Mundo ocorra, o País terá que caminhar a passos largos, apesar do cronograma apertado para a realização das obras já previstas – como será possível observar ao longo desse estudo.
Os efeitos positivos em sediar um dos eventos esportivos mais importantes do mundo podem ser perenizados e multiplicados, como veremos a seguir. Cumpridas todas as etapas e exigências impostas pela Fifa, além de selarmos a imagem do Brasil como País capaz de organizar com seriedade uma competição de dimensões internacionais, estaremos alcançando outro patamar socioeconômico e estrutural.
Com algumas etapas já vencidas e sólidos fundamentos macroeconômicos, o País segue mais próximo ao almejado
seguirá moldes estruturais e de organização semelhantes à das Copas da Alemanha e da África do Sul, em 2010. Além do mais, esse evento não ocorre isoladamente, sendo antecedido e acompanhado por uma série de outros, dentre os quais se destaca a Copa das Confederações, um ano antes.as especificações da Federação Internacional de Futebol (Fifa).dias. O público atraído é menor, assim como a divulgação e o peso histórico do evento. Espera-se, por exemplo, que o fluxo de turistas internacionais para esse torneio seja inferior a um quarto dosInternational Midia Center, IMC) e o centro de transmissão dos jogos (International Broadcasting Center, IBC). Já a infraestrutura hoteleira e de transportes deverá, nesse momento, estar em estágio de conclusão.status de quinta maior economia do planeta em um futuro bem próximo.Fluxo de turistas turbina o consumo
Um dos fatores que mais motivam um país a sediar uma Copa do
indiretamente, em função da exposição na mídia internacional. Entretanto, tal oportunidade de crescimento do turismo deve ser aproveitada por meio de diversos eixos de ação, dos quais no Brasil o mais relevante é a remoção de gargalos. A respeito deste ponto
Mundo é o fluxo turístico que tal evento gera – não somente de forma direta, por meio de torcedores que vão assistir à competição, como tambémespecífico, é preciso ter em mente que, à exceção de iniciativas isoladas, a crescente visibilidade do País no cenário internacional durante a última década não temsido adequadamente alavancada
O presente estudo indica que, caso sejam realizadas as ações País aproveitar as oportunidades geradas pela Copa do Mundo, o evento poderá proporcionar um crescimento de até 79% no fluxo turístico internacional para o Brasil em 2014, com impactos, possivelmente, até superiores nos anos subsequentes. No período
Cidades-sede: os vários corações da Copa
Veja o artigo na integra: http://www.sebrae.com.br/setor/textil-e-confeccoes/o-setor/mercado/Brasil_Sustentavel_Copa_do_Mundo_2014.pdfmaior expectativa de público – tais como o de abertura e os jogos da segunda fase – deverão ser recebidos pelas cidades-sede com estádios de maior capacidade e melhoresàs especificações da Fifa, como também a base de tecnologia de informação em cada cidade-sede, os centros de mídia (IMCs) e de transmissão dos jogos (IBCs), e as instalações dos Fan Parks. Mas não é só isso. Há ainda diversos aspectos da infraestrutura local que devem atender a certos padrões para que o evento seja viável, como complexos hoteleiros e acessos aos diversos modais de transporte que comportem o intenso movimento associadonotoriamente direcionada para os setores de hotelaria, transporte, comunicações, cultura, lazer e comércio varejista. Estima-se que o fluxo turístico induzido direta e indiretamente pela Copa do Mundo seria responsável por receitas adicionais de até R$ 5,94 bilhões para as empresas brasileiras.
pelos setores privado e público para gerar um aproveitamento integral do potencial turístico brasileiro. Esse fato se evidencia na deterioração da qualidade do sistema aeroportuário, bem como na estagnação do número de turistas em anos recentes.2010-2014, esse número deve
chegar a um total de até 2,98 milhões de visitantes adicionais.O fluxo turístico traz consigo uma entrada significativa de divisas,
Há muita expectativa em torno da preparação adequada das cidades-sede para o evento. Muito se questiona se estarão totalmente de acordo com as exigências impostas pela Fifa no que tange à infraestrutura
de estádios, mobilidade urbana, hotelaria e segurança, principalmente. Delas dependerá o sucesso da Copa do Mundo de 2014 e seu legado não só do ponto de vista do evento em si, mas também das condições
turísticas regionais.
Quanto ao número de estádios e cidades participantes, a Copa contará com 12 cidades-sede, que, distribuídas entre as cinco macrorregiões do País, diferem significativamente entre si, em termos de condições de infraestrutura, capacidade e adequação de seus estádios e características geográficas.Neste contexto, os jogos com
condições gerais. Essas cidades serão alvo de iniciativas de infraestrutura que no total somarão investimentos
da ordem de R$ 14,54 bilhões (veja mapa dos investimentos em cada cidade-sede e seus respectivos
impactos nos PIBs municipais nas páginas 14 e 15). Só em reurbanização e embelezamento, com foco nos locais com maior movimento de turistas e no entorno dos estádios, os gastos estão estimados em R$ 2,84
bilhões. A estrutura necessária para a realização da Copa e dos eventos associados é extensa, compreendendo não apenas os estádios, que devem se adequar
à Copa.Veja o artigo na integra: http://www.sebrae.com.br/setor/textil-e-confeccoes/o-setor/mercado/Brasil_Sustentavel_Copa_do_Mundo_2014.pdfmaior expectativa de público – tais como o de abertura e os jogos da segunda fase – deverão ser recebidos pelas cidades-sede com estádios de maior capacidade e melhoresàs especificações da Fifa, como também a base de tecnologia de informação em cada cidade-sede, os centros de mídia (IMCs) e de transmissão dos jogos (IBCs), e as instalações dos Fan Parks. Mas não é só isso. Há ainda diversos aspectos da infraestrutura local que devem atender a certos padrões para que o evento seja viável, como complexos hoteleiros e acessos aos diversos modais de transporte que comportem o intenso movimento associadonotoriamente direcionada para os setores de hotelaria, transporte, comunicações, cultura, lazer e comércio varejista. Estima-se que o fluxo turístico induzido direta e indiretamente pela Copa do Mundo seria responsável por receitas adicionais de até R$ 5,94 bilhões para as empresas brasileiras.
(29/01) Revista Torcida traz entrevista com pesquisador da Fundaj
Túlio Velho Barreto é cientista político e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), onde trabalha desde 1984. Atualmente, é vice-coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do Futebol (Nesf),da Fundaj e UFPE. Nos últimos anos vem realizando pesquisas sobre as regras do futebol e a formação de jogadores com financiamento do Ministério da Ciência e Tecologia/CNPq. Aqui, Velho Barreto fala sobre realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e em Pernambuco, suas implicações e consequências. Por Vanessa AraújoEspecial para Torcida
Velho Barreto - Creio que não mudará muito. O futebol já tem forte apelo popular no Brasil. Claro que, em torno da Copa, ou seja, imediatamente antes e depois, poderá haver certa euforia. Isso poderá incorporar mais aficionados. Mas depois vem o equilíbrio. Porém, se houver as melhorias aqui apontadas, e prometidas pelo poder público, isso pode fazer com que as pessoas, mesmo os não fãs, vejam positivamente os esforços públicos e privados na realização deste e outros eventos. Por outro lado, pode significar impulso esportivo no Estado, o que pode levar mais jovens a busca r o esporte como meio de ascensão social. Mas, como disse, isso tende a ocorrer mais intensamente apenas em torno da realização d o evento.
Torcida - Qual a importância de um evento mundial para Pernambuco como a Copa?
Velho Barreto - Penso que uma resposta cuidadosa tem que contemplar dois níveis de análise. A primeira, diz respeito ao que já falamos aqui: os investimentos na infraestrutura, em transportes urbanos e acessos, e na segurança pública. Mas o importante é que o que for feito nessas áreas visando a Copa do Mundo não pode ser abandonado após o evento. A segunda, diz respeito à realização de todo evento internacional, que pode contribuir para colocar o país e suas cidades-sedes, no caso da Copa, no roteiro internacional de grandes eventos, despertando positivamente o interesse turístico.
Torcida - Quais os riscos de se construir uma “Cidade da Copa” no Estado? Velho Barreto - A princípio, a ideia de desafogar a RMR, com a construção de praticamente uma cidade na zona oeste, parece positiva, já que o Recife quase não tem mais para onde crescer a não ser verticalmente. No entanto, o projeto, que incluía no curto prazo também um hospital público, já transferido para uma área mais próxima do Recife, será executado aos poucos, ou seja, até a Copa só haverá pouco mais do que apenas a arena e algumas obras de infraestrutura, que permitirão o acesso até lá. Então, se não tiver continuidade, se não for concluído, pode se tornar um “elefante br anco”, uma “cidade fantasma”, sem prédios, sem moradores. A experiência inicial com o TIP na mesma região mostra que isso p ode ocorrer. E mais: o deslocamento do hospital e o anúncio de projetos paralelos, como os do Santa Cruz e Náutico, e o desinteresse do Sport, que poderiam ser os maiores beneficiários da construção de um estádio moderno na RMR, já podem ser indícios para as dificuldades de manter a integridade do projeto original e de evitar que se transforme em um “elefante branco”.
Torcida - Quais problemas sociais poderão ser amenizados com a realização da Copa em Pernambuco e quais poderão ser acentuados?Velho Barreto - Se tudo ocorrer como planejado e prometido pelas autoridades públicas, o que infelizmente não é comum no Brasil, basta lembrar o que ocorreu com o Pan no Rio em 2007, a Copa do Mundo poderá trazer os benefícios sociais e econômicos já apontados. Mas o que deve nos preocupar, e muito, é a possibilidade bastante plausível da má aplicação de recursos públicos, ainda que em parceria com o setor privado. E os atrasos recorrentes para o lançamento do edital para a construção da arena pode não ser um bom prenúncio do que teremos pela frente. Por isso, penso que é fundamental que tudo seja feito de forma transparente e tenha o acompanhamento da sociedade. O que a Copa da Confederação na África do Sul nos mostrou é que foram construídos ótimos estádios, mas suas vias de acesso, as estradas, os meios de transportes, a segurança púb lica e a rede hoteleira continuam muito deficitários.
Torcida - O que o futebol representa para a sociedade brasileira?
Velho Barreto - Não só no Brasil, mas em grande parte do mundo, o futebol representa algo muito especial. É sem dúvida o esporte mais popular e praticado em todo o mundo. Basta lembrar que a Fifa tem mais países filiados que a própria ONU. Já em relação ao Brasil, este esporte, trazido para cá pela elite brasileira, por religiosos e empreendedores e trabalhadores ingleses no final do século XIX, foi logo popularizado pela incorporação de camadas mais pobres de nossa população, sobretudo os negros, recém libertos da escravidão. E, já na década de 1930, pela ação do governo Getulio Vargas interessado em construir a ideia de nação e povo brasileiros através de uma identidade nacional. Além do futebol, o samba, nesse caso uma manifestação de brasileiros afrodescendentes, foi outra manifestação cultural usada com tal objetivo. Assim, ambos transformaram-se em importantes traços de nossa cultura.
Torcida - Quais os principais benefícios que um evento como a Copa do Mundo traz para um país com tanto contrastes sociais como o Brasil? Velho Barreto - A realização de uma Copa do Mundo nos países chamados emergentes não pode significar a panacéia para os seus problemas sociais. Isso não faz sentido. Nem é para isso que se realizam eventos desse tipo. Contudo, temos que reconhecer que, no passado, as Copas do Mundo eram realmente apenas eventos esportivos. Por exemplo, a maior herança deixada pela Copa de 1950, no Brasil, foi mesmo a construção do Maracanã, que fortaleceu ainda mais o futebol do Rio, então capital do País. Hoje, a Copa do Mundo é um espetáculo que envolve muitos interesses e bilhões de dólares. Dessa forma, já não dá para pensar em realizar uma Copa sem que deixe como herança grandes investimentos em infraestrutura e ações sociais, sobretudo em países desiguais como o Brasil. Então, é isso que se espera que ocorra em 2014.
Torcida - Quais os compromissos sociais que o Estado deve assumir para que os investimentos feitos na Copa sejam justificáveis?
Velho Barreto - No caso de Pernambuco, mas não só aqui, é claro, devem ser assumidos compromissos que importem em mudanças substanciais em infraestrutura e segurança, por exemplo. Em outras palavras, na área de transporte público, como aumento de linhas de ônibus e novas estações e linhas de metrô, não só para a zona oeste, onde ficará a Cidade da Copa, mas interligando a Região Metropolitana do Recife (RMR) como um todo. E, pensando em termos regionais, até entre as capitais nordestinas envolvidas, através da duplicação de toda a BR 101 na região, o que, aí, depende do governo federal. Mas igualmente devem ser feitos pesados investimentos na área da defesa soc ial, com aparelhamento, treinamento e ampliação das polícias... Em resumo, que impulsione o desenvolvimento social autosustentável.
Torcida - Até que ponto a Copa no Brasil pode mudar a forma como os torcedores veem o futebol?
Torcida - Quais os principais benefícios que um evento como a Copa do Mundo traz para um país com tanto contrastes sociais como o Brasil? Velho Barreto - A realização de uma Copa do Mundo nos países chamados emergentes não pode significar a panacéia para os seus problemas sociais. Isso não faz sentido. Nem é para isso que se realizam eventos desse tipo. Contudo, temos que reconhecer que, no passado, as Copas do Mundo eram realmente apenas eventos esportivos. Por exemplo, a maior herança deixada pela Copa de 1950, no Brasil, foi mesmo a construção do Maracanã, que fortaleceu ainda mais o futebol do Rio, então capital do País. Hoje, a Copa do Mundo é um espetáculo que envolve muitos interesses e bilhões de dólares. Dessa forma, já não dá para pensar em realizar uma Copa sem que deixe como herança grandes investimentos em infraestrutura e ações sociais, sobretudo em países desiguais como o Brasil. Então, é isso que se espera que ocorra em 2014.
Torcida - Quais os compromissos sociais que o Estado deve assumir para que os investimentos feitos na Copa sejam justificáveis?
Velho Barreto - No caso de Pernambuco, mas não só aqui, é claro, devem ser assumidos compromissos que importem em mudanças substanciais em infraestrutura e segurança, por exemplo. Em outras palavras, na área de transporte público, como aumento de linhas de ônibus e novas estações e linhas de metrô, não só para a zona oeste, onde ficará a Cidade da Copa, mas interligando a Região Metropolitana do Recife (RMR) como um todo. E, pensando em termos regionais, até entre as capitais nordestinas envolvidas, através da duplicação de toda a BR 101 na região, o que, aí, depende do governo federal. Mas igualmente devem ser feitos pesados investimentos na área da defesa soc ial, com aparelhamento, treinamento e ampliação das polícias... Em resumo, que impulsione o desenvolvimento social autosustentável.
Torcida - Até que ponto a Copa no Brasil pode mudar a forma como os torcedores veem o futebol?
Torcida - Qual a importância de um evento mundial para Pernambuco como a Copa?
Velho Barreto - Penso que uma resposta cuidadosa tem que contemplar dois níveis de análise. A primeira, diz respeito ao que já falamos aqui: os investimentos na infraestrutura, em transportes urbanos e acessos, e na segurança pública. Mas o importante é que o que for feito nessas áreas visando a Copa do Mundo não pode ser abandonado após o evento. A segunda, diz respeito à realização de todo evento internacional, que pode contribuir para colocar o país e suas cidades-sedes, no caso da Copa, no roteiro internacional de grandes eventos, despertando positivamente o interesse turístico.
Torcida - Quais os riscos de se construir uma “Cidade da Copa” no Estado? Velho Barreto - A princípio, a ideia de desafogar a RMR, com a construção de praticamente uma cidade na zona oeste, parece positiva, já que o Recife quase não tem mais para onde crescer a não ser verticalmente. No entanto, o projeto, que incluía no curto prazo também um hospital público, já transferido para uma área mais próxima do Recife, será executado aos poucos, ou seja, até a Copa só haverá pouco mais do que apenas a arena e algumas obras de infraestrutura, que permitirão o acesso até lá. Então, se não tiver continuidade, se não for concluído, pode se tornar um “elefante br anco”, uma “cidade fantasma”, sem prédios, sem moradores. A experiência inicial com o TIP na mesma região mostra que isso p ode ocorrer. E mais: o deslocamento do hospital e o anúncio de projetos paralelos, como os do Santa Cruz e Náutico, e o desinteresse do Sport, que poderiam ser os maiores beneficiários da construção de um estádio moderno na RMR, já podem ser indícios para as dificuldades de manter a integridade do projeto original e de evitar que se transforme em um “elefante branco”.
Torcida - Quais problemas sociais poderão ser amenizados com a realização da Copa em Pernambuco e quais poderão ser acentuados?Velho Barreto - Se tudo ocorrer como planejado e prometido pelas autoridades públicas, o que infelizmente não é comum no Brasil, basta lembrar o que ocorreu com o Pan no Rio em
http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=1474&textCode=14433&date=currentDate
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