Túlio Velho Barreto é cientista político e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), onde trabalha desde 1984. Atualmente, é vice-coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do Futebol (Nesf),da Fundaj e UFPE. Nos últimos anos vem realizando pesquisas sobre as regras do futebol e a formação de jogadores com financiamento do Ministério da Ciência e Tecologia/CNPq. Aqui, Velho Barreto fala sobre realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e em Pernambuco, suas implicações e consequências. Por Vanessa AraújoEspecial para Torcida
Velho Barreto - Creio que não mudará muito. O futebol já tem forte apelo popular no Brasil. Claro que, em torno da Copa, ou seja, imediatamente antes e depois, poderá haver certa euforia. Isso poderá incorporar mais aficionados. Mas depois vem o equilíbrio. Porém, se houver as melhorias aqui apontadas, e prometidas pelo poder público, isso pode fazer com que as pessoas, mesmo os não fãs, vejam positivamente os esforços públicos e privados na realização deste e outros eventos. Por outro lado, pode significar impulso esportivo no Estado, o que pode levar mais jovens a busca r o esporte como meio de ascensão social. Mas, como disse, isso tende a ocorrer mais intensamente apenas em torno da realização d o evento.
Torcida - Qual a importância de um evento mundial para Pernambuco como a Copa?
Velho Barreto - Penso que uma resposta cuidadosa tem que contemplar dois níveis de análise. A primeira, diz respeito ao que já falamos aqui: os investimentos na infraestrutura, em transportes urbanos e acessos, e na segurança pública. Mas o importante é que o que for feito nessas áreas visando a Copa do Mundo não pode ser abandonado após o evento. A segunda, diz respeito à realização de todo evento internacional, que pode contribuir para colocar o país e suas cidades-sedes, no caso da Copa, no roteiro internacional de grandes eventos, despertando positivamente o interesse turístico.
Torcida - Quais os riscos de se construir uma “Cidade da Copa” no Estado? Velho Barreto - A princípio, a ideia de desafogar a RMR, com a construção de praticamente uma cidade na zona oeste, parece positiva, já que o Recife quase não tem mais para onde crescer a não ser verticalmente. No entanto, o projeto, que incluía no curto prazo também um hospital público, já transferido para uma área mais próxima do Recife, será executado aos poucos, ou seja, até a Copa só haverá pouco mais do que apenas a arena e algumas obras de infraestrutura, que permitirão o acesso até lá. Então, se não tiver continuidade, se não for concluído, pode se tornar um “elefante br anco”, uma “cidade fantasma”, sem prédios, sem moradores. A experiência inicial com o TIP na mesma região mostra que isso p ode ocorrer. E mais: o deslocamento do hospital e o anúncio de projetos paralelos, como os do Santa Cruz e Náutico, e o desinteresse do Sport, que poderiam ser os maiores beneficiários da construção de um estádio moderno na RMR, já podem ser indícios para as dificuldades de manter a integridade do projeto original e de evitar que se transforme em um “elefante branco”.
Torcida - Quais problemas sociais poderão ser amenizados com a realização da Copa em Pernambuco e quais poderão ser acentuados?Velho Barreto - Se tudo ocorrer como planejado e prometido pelas autoridades públicas, o que infelizmente não é comum no Brasil, basta lembrar o que ocorreu com o Pan no Rio em 2007, a Copa do Mundo poderá trazer os benefícios sociais e econômicos já apontados. Mas o que deve nos preocupar, e muito, é a possibilidade bastante plausível da má aplicação de recursos públicos, ainda que em parceria com o setor privado. E os atrasos recorrentes para o lançamento do edital para a construção da arena pode não ser um bom prenúncio do que teremos pela frente. Por isso, penso que é fundamental que tudo seja feito de forma transparente e tenha o acompanhamento da sociedade. O que a Copa da Confederação na África do Sul nos mostrou é que foram construídos ótimos estádios, mas suas vias de acesso, as estradas, os meios de transportes, a segurança púb lica e a rede hoteleira continuam muito deficitários.
Torcida - O que o futebol representa para a sociedade brasileira?
Velho Barreto - Não só no Brasil, mas em grande parte do mundo, o futebol representa algo muito especial. É sem dúvida o esporte mais popular e praticado em todo o mundo. Basta lembrar que a Fifa tem mais países filiados que a própria ONU. Já em relação ao Brasil, este esporte, trazido para cá pela elite brasileira, por religiosos e empreendedores e trabalhadores ingleses no final do século XIX, foi logo popularizado pela incorporação de camadas mais pobres de nossa população, sobretudo os negros, recém libertos da escravidão. E, já na década de 1930, pela ação do governo Getulio Vargas interessado em construir a ideia de nação e povo brasileiros através de uma identidade nacional. Além do futebol, o samba, nesse caso uma manifestação de brasileiros afrodescendentes, foi outra manifestação cultural usada com tal objetivo. Assim, ambos transformaram-se em importantes traços de nossa cultura.
Torcida - Quais os principais benefícios que um evento como a Copa do Mundo traz para um país com tanto contrastes sociais como o Brasil? Velho Barreto - A realização de uma Copa do Mundo nos países chamados emergentes não pode significar a panacéia para os seus problemas sociais. Isso não faz sentido. Nem é para isso que se realizam eventos desse tipo. Contudo, temos que reconhecer que, no passado, as Copas do Mundo eram realmente apenas eventos esportivos. Por exemplo, a maior herança deixada pela Copa de 1950, no Brasil, foi mesmo a construção do Maracanã, que fortaleceu ainda mais o futebol do Rio, então capital do País. Hoje, a Copa do Mundo é um espetáculo que envolve muitos interesses e bilhões de dólares. Dessa forma, já não dá para pensar em realizar uma Copa sem que deixe como herança grandes investimentos em infraestrutura e ações sociais, sobretudo em países desiguais como o Brasil. Então, é isso que se espera que ocorra em 2014.
Torcida - Quais os compromissos sociais que o Estado deve assumir para que os investimentos feitos na Copa sejam justificáveis?
Velho Barreto - No caso de Pernambuco, mas não só aqui, é claro, devem ser assumidos compromissos que importem em mudanças substanciais em infraestrutura e segurança, por exemplo. Em outras palavras, na área de transporte público, como aumento de linhas de ônibus e novas estações e linhas de metrô, não só para a zona oeste, onde ficará a Cidade da Copa, mas interligando a Região Metropolitana do Recife (RMR) como um todo. E, pensando em termos regionais, até entre as capitais nordestinas envolvidas, através da duplicação de toda a BR 101 na região, o que, aí, depende do governo federal. Mas igualmente devem ser feitos pesados investimentos na área da defesa soc ial, com aparelhamento, treinamento e ampliação das polícias... Em resumo, que impulsione o desenvolvimento social autosustentável.
Torcida - Até que ponto a Copa no Brasil pode mudar a forma como os torcedores veem o futebol?
Torcida - Quais os principais benefícios que um evento como a Copa do Mundo traz para um país com tanto contrastes sociais como o Brasil? Velho Barreto - A realização de uma Copa do Mundo nos países chamados emergentes não pode significar a panacéia para os seus problemas sociais. Isso não faz sentido. Nem é para isso que se realizam eventos desse tipo. Contudo, temos que reconhecer que, no passado, as Copas do Mundo eram realmente apenas eventos esportivos. Por exemplo, a maior herança deixada pela Copa de 1950, no Brasil, foi mesmo a construção do Maracanã, que fortaleceu ainda mais o futebol do Rio, então capital do País. Hoje, a Copa do Mundo é um espetáculo que envolve muitos interesses e bilhões de dólares. Dessa forma, já não dá para pensar em realizar uma Copa sem que deixe como herança grandes investimentos em infraestrutura e ações sociais, sobretudo em países desiguais como o Brasil. Então, é isso que se espera que ocorra em 2014.
Torcida - Quais os compromissos sociais que o Estado deve assumir para que os investimentos feitos na Copa sejam justificáveis?
Velho Barreto - No caso de Pernambuco, mas não só aqui, é claro, devem ser assumidos compromissos que importem em mudanças substanciais em infraestrutura e segurança, por exemplo. Em outras palavras, na área de transporte público, como aumento de linhas de ônibus e novas estações e linhas de metrô, não só para a zona oeste, onde ficará a Cidade da Copa, mas interligando a Região Metropolitana do Recife (RMR) como um todo. E, pensando em termos regionais, até entre as capitais nordestinas envolvidas, através da duplicação de toda a BR 101 na região, o que, aí, depende do governo federal. Mas igualmente devem ser feitos pesados investimentos na área da defesa soc ial, com aparelhamento, treinamento e ampliação das polícias... Em resumo, que impulsione o desenvolvimento social autosustentável.
Torcida - Até que ponto a Copa no Brasil pode mudar a forma como os torcedores veem o futebol?
Torcida - Qual a importância de um evento mundial para Pernambuco como a Copa?
Velho Barreto - Penso que uma resposta cuidadosa tem que contemplar dois níveis de análise. A primeira, diz respeito ao que já falamos aqui: os investimentos na infraestrutura, em transportes urbanos e acessos, e na segurança pública. Mas o importante é que o que for feito nessas áreas visando a Copa do Mundo não pode ser abandonado após o evento. A segunda, diz respeito à realização de todo evento internacional, que pode contribuir para colocar o país e suas cidades-sedes, no caso da Copa, no roteiro internacional de grandes eventos, despertando positivamente o interesse turístico.
Torcida - Quais os riscos de se construir uma “Cidade da Copa” no Estado? Velho Barreto - A princípio, a ideia de desafogar a RMR, com a construção de praticamente uma cidade na zona oeste, parece positiva, já que o Recife quase não tem mais para onde crescer a não ser verticalmente. No entanto, o projeto, que incluía no curto prazo também um hospital público, já transferido para uma área mais próxima do Recife, será executado aos poucos, ou seja, até a Copa só haverá pouco mais do que apenas a arena e algumas obras de infraestrutura, que permitirão o acesso até lá. Então, se não tiver continuidade, se não for concluído, pode se tornar um “elefante br anco”, uma “cidade fantasma”, sem prédios, sem moradores. A experiência inicial com o TIP na mesma região mostra que isso p ode ocorrer. E mais: o deslocamento do hospital e o anúncio de projetos paralelos, como os do Santa Cruz e Náutico, e o desinteresse do Sport, que poderiam ser os maiores beneficiários da construção de um estádio moderno na RMR, já podem ser indícios para as dificuldades de manter a integridade do projeto original e de evitar que se transforme em um “elefante branco”.
Torcida - Quais problemas sociais poderão ser amenizados com a realização da Copa em Pernambuco e quais poderão ser acentuados?Velho Barreto - Se tudo ocorrer como planejado e prometido pelas autoridades públicas, o que infelizmente não é comum no Brasil, basta lembrar o que ocorreu com o Pan no Rio em
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